PRIMEIRA CONFERENCIA DO ABADE MOISÉS — DA META E DO FIM DO MONGE (tradução brasileira)
Sobre o Escopo e o Fim da Vida Espiritual
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Introdução ao Ensinamento do Abba Moisés
- João Cassiano e Abba Germano, unidos por forte amizade e propósito espiritual, buscam no deserto de Cétia o experiente Abba Moisés.
- Após insistência, Abba Moisés consente em instruí-los, condicionando o ensinamento à contrição de coração e ao desejo genuíno pela perfeição, evitando assim o vício da vanglória ou a traição de entregar coisas sagradas aos indignos.
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A Necessidade de um Escopo e um Fim
- Todas as artes e disciplinas possuem um scopos (meta, objetivo imediato) e um telos (fim último), pelos quais seus praticantes suportam todos os labores.
- O agricultor trabalha com o scopos de limpar a terra para atingir o telos da colheita abundante.
- O comerciante enfrenta os perigos do mar com o scopos de obter mercadorias para atingir o telos do lucro.
- O soldado ambicioso suporta guerras e fadigas com o scopos de servir a um cargo para atingir o telos da honra e do poder.
- Da mesma forma, a profissão monástica possui um scopos e um telos, que justificam o jejum, a vigília, a solidão e a privação de bens.
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A Definição do Fim e do Escopo Espiritual
- O fim último (telos) da vida espiritual é o Reino dos Céus.
- O escopo ou meta imediata (scopos) é a pureza de coração (ou caridade), sem a qual é impossível atingir o fim.
- Este scopos deve ser mantido como um alvo fixo, uma regra que orienta e corrige todos os esforços e pensamentos, garantindo a rota mais direta para o telos.
- A analogia do arqueiro ilustra a necessidade de um alvo visível (scopos) para se atingir o prêmio (telos); sem ele, os esforços são inúteis e sem direção.
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A Primazia da Pureza de Coração
- A perfeição não é alcançada apenas pela renúncia exterior (bens, honras), mas pela caridade descrita por São Paulo, que consiste na pureza de coração livre de paixões como inveja, ira, orgulho e egoísmo.
- As práticas ascéticas (jejum, vigília, leitura, solidão) são ferramentas ou instrumentos para se adquirir a pureza de coração, não a perfeição em si.
- Estas práticas são secundárias e, se necessidade ou caridade exigirem sua omissão, não se deve cair em tristeza ou ira, pois o prejuízo moral seria maior que o ganho ascético.
- O que perturba a pureza e a tranquilidade da mente, por mais útil que pareça, deve ser evitado como nocivo.
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A Contemplação como o Bem Supremo
- O exemplo de Marta e Maria (Lc 10:38-42) ilustra a primazia da theoria (contemplação divina) sobre a praxis (ação, serviço).
- Maria escolheu a "boa parte" da contemplação, que não lhe será tirada, enquanto o serviço de Marta, embora santo, é temporário e pode ser interrompido.
- O sumo bem reside na contemplação simples e unificada de Deus.
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A Natureza Transitória das Obras e a Eternidade do Amor
- As obras de misericórdia e as disciplinas corporais são necessárias e recompensadas na era presente, marcada pela iniquidade e necessidade.
- No entanto, estas obras cessarão na vida futura, onde a iniquidade não existirá e o corpo será espiritual e incorruptível, não mais necessitando de tais auxílios.
- A caridade (amor), no entanto, nunca acabará; é eterna e permanecerá de forma ainda mais excelente no mundo vindouro.
- Até mesmo os dons mais sublimes do Espírito, como profecias e línguas, cessarão, mas o amor permanece.
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A Possibilidade da Contemplação Contínua
- É impossível à mente, enclausurada na carne perecível, manter-se incessantemente fixa na contemplação de Deus devido a distrações e necessidades.
- No entanto, deve-se saber onde fixar a atenção da mente e a que objetivo recallar o olhar da alma. A separação dessa contemplação deve ser sentida como fornicação.
- O Reino de Deus está dentro do homem (Lc 17:21) e consiste em justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14:17).
- A condição da vida futura é descrita como alegria, ação de graças e louvor perpétuos (Is 65:17-18), onde Deus será a luz eterna (Is 60:19-20).
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O Estado das Almas após a Morte
- As almas dos justos, após a morte, não perdem a sensibilidade nem são dissolvidas no nada; pelo contrário, vivem mais plenamente e aderem mais intensamente ao louvor de Deus.
- Exemplos bíblicos como Lázaro e o Rico (Lc 16:19-31) e a promessa a Dimas ("Hoje estarás comigo no Paraíso") confirmam que as almas mantêm suas faculdades, esperanças, alegrias e temores, antecipando o que lhes está reservado.
- São Paulo deseja deixar o corpo para estar com Cristo (Fl 1:23; 2Cor 5:6-8), indicando que a alma, livre do peso da carne, recupera suas faculdades intelectuais de forma mais pura e aperfeiçoada.
- A alma, onde reside a imagem e semelhança de Deus, é a parte mais preciosa do homem e não pode tornar-se insensível.
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As Múltiplas Formas da Contemplação de Deus
- Deus é contemplado não apenas em Sua substância incompreensível (esperada na promessa futura), mas também:
- Na grandeza da criação.
- Na reflexão sobre Sua justiça e providência diária.
- No auxílio prestado aos santos ao longo das gerações.
- No poder, conhecimento e mansidão inefáveis com que governa o mundo.
- Na dispensação de Sua encarnação para a salvação de todos.
- Estas contemplações são acessíveis à mente purificada, de acordo com a pureza de coração e o caráter da vida de cada um.
- Deus é contemplado não apenas em Sua substância incompreensível (esperada na promessa futura), mas também:
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A Origem dos Pensamentos e o Dever do Discernimento
- Os pensamentos têm três origens:
- De Deus: Por iluminação do Espírito Santo, que eleva a alma, inflama a caridade ou produz compunção salutar.
- Do Diabo: Que tenta subverter a alma, apresentando o mal como bem, transformando-se em anjo de luz.
- De nós mesmos: Pela lembrança espontânea de coisas que fazemos, fizemos ou ouvimos.
- É impossível à mente não ser importunada por pensamentos, mas depende de nós aceitá-los ou rejeitá-los.
- A mente é comparada a mós movidas pela água: a água (as tentações da vida) as faz girar incessantemente, mas o moleiro (o homem) decide que grão (pensamento) será moído (aceito).
- A meditação constante da Escritura, os salmos, as vigílias, o jejum e a oração direcionam a mente para pensamentos espirituais. A negligência leva a pensamentos terrenos e carnais.
- Os pensamentos têm três origens:
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A Arte do Cambista Aprovado
- Deve-se examinar todos os pensamentos com sábia discrição, traçando sua origem e autor, como um cambista aprovado (Mt 25:27; 1Ts 5:21) que examina moedas:
- Analisar o material: Se é ouro puro (doutrina do Espírito Santo) ou falso (superstição judaica, filosofia mundana com aparência de piedade).
- Verificar a efígie: Se traz a imagem do Rei verdadeiro (interpretação ortodoxa) ou de um usurpador (interpretação herética e perversa das Escrituras).
- Examinar a legitimidade da casa da moeda: Se a ação sugerida (ex.: jejum excessivo, visitas a religiosas) é legalmente cunhada (aprovada pelos pais católicos) ou fabricada clandestinamente por demônios, sob véu de misericórdia, mas prejudicial à solidez da vocação.
- Pesar no balanço: Se a ação tem o peso adequado do temor de Deus e é integral, ou se é leve devido à ostentação humana, vaidade vã ou presunção novidadeira.
- Deve-se comparar sempre com os exemplos e testemunhos dos profetas e apóstolos, rejeitando o que não for conforme.
- Deve-se examinar todos os pensamentos com sábia discrição, traçando sua origem e autor, como um cambista aprovado (Mt 25:27; 1Ts 5:21) que examina moedas:
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Exemplo de Decepção e Conclusão sobre a Discretio
- O Abba João de Lycon foi enganado pelo diabo (em forma de etíope) após um jejum excessivo de dois dias. O demônio confessou ser o autor daquele labor, revelando que a abstinência exagerada, embora parecesse piedosa, era na realidade uma moeda falsa, spiritualmente nociva.
- Abba Moisés conclui enfatizando a excelência e a necessidade suprema da discrição (discretio), a virtude que governa a moderação e evita os excessos.
- Adiando a continuação do tema por ser já noite, ele demonstra a própria discrição ao não se estender além do tempo e medida adequados, mesmo diante do ardente desejo dos ouvintes.
- João Cassiano e Germano repousam, inflamados de alegria pela conferência e excitados pela promessa de futura discussão.